
Houve um tempo em que eu não queria engravidar. Depois houve um tempo em que eu queria muito, mas pelas razões erradas. No fundo, lá no fundinho do útero e da alma, eu morria de medo de criar uma criança em “condições de temperatura e pressão” não muito favoráveis. E aí, na seqüência, houve um tempo em que eu simplesmente abominava a idéia, porque achava (e acho que ainda acho) que quando você tem filhos, sua vida muda completamente e você se torna uma pessoa com adjacências para todo o sempre, ou pelo menos até seu filho atingir uma idade considerável para se virar sozinho - o que é, claro, quando chegar lá, você vai lamentar muito.Nesse tempo que houve, em que eu achava que a pessoa simplesmente não vivia sua própria vida, mas sim a dos filhos, eu pensava em coisas que me davam muitos arrepios, como:
- Festa de criança;
- Cocô para limpar;
- Noites que nunca mais seriam dormidas da mesma forma;
- Viagens para lugares que tenham parquinhos ou parcões;
- Fim de semana na casa dos sogros e dos pais com as crianças;
- Amiguinhos em casa;
- Energia que nunca acaba, nunca, simplesmente nunca;
- Comida especial;
- Relação com babás;
- Ausência de álcool por bastante tempo;
- Sexo com discrição ou longos períodos de ausência do mesmo;
- Desenho animado, programa da Xuxa, filme infantil, teatro infantil;
- E last, but not least, uma coisa que me dá o arrepio máximo: recreadores, em TO-DOS os lugares!
Eis que o tempo passou, e aí houve um tempo em que eu quis, novamente e finalmente, muito ter filhos, mas não pelas razões anteriormente racionalizadas. Acho que deu-se um período natural de amadurecimento. E foi quando pensei em todos os itens que antes me arrepiavam, sim, mas também pensei em questões muito mais profundas, como:
- Se eu não tiver filhos, não terei a minha ‘continuidade’ quando morrer; não terei deixado nenhum rastro de mim para a posteridade, até porque, infelizmente, não virei celebridade de Hollywood;
- Se eu não tiver filhos, nunca terei a chance de ter uma família grande como a dos filmes e comerciais de margarina, que podem dar bastante despesa, mas pelo menos animam os Natais e Páscoas e afins;
- Se eu não tiver filhos, corro o risco de acabar sozinha, sem atenção, sem cuidados, agitando as tardes de um asilo (o que não significa que um filho meu não possa acabar me botando num asilo, mas a gente nunca acha que isso vai acontecer, pelo menos não pensamos muito nisso na idade em que me encontro, né?);
- Se eu não tiver filhos, quando poderei sentir o prazer de ter um pouco de mim em outro ser? Minha gata já assimilou muito da minha neurose, mas ainda não faz teatrinhos como eu fazia quando era criança, não escreve livrinhos como eu escrevia… Ah, ela me dá “patadas” como eu dava em minha mãe, mas isso não é lá muito bonito de se reproduzir;
- Se eu não tiver filhos… na hora que a ‘minha hora’ chegar, não terei a sensação de ‘dever cumprido’. O que eu vou pensar quando chegar lá? Ok, já posso ir embora, porque afinal trabalhei, conheci pessoas, morei num lugar legal, viajei, fui à praia, tomei chopp e… fiz um blog?
Buenos, esse tempo do “houve um tempo em que eu quis” ainda está ‘havendo’, digamos assim… De qualquer forma, se eu não conseguir ter filhos naturalmente, sem precisar escolher alguém que normalmente eu mesma não gostaria de ter como pai, nem contratar um outdoor que diga “Alguém aí quer procriar?”, e nem partir para produção intependente (que eu acho uma sacanagem com o ser, que já nasce sem uma “parte” de si, no caso, o pai), pretendo cumprir a minha missão na Terra com o máximo de louvor e méritos, adotando uma criaturinha (ou mais de uma) que queira me fazer o favor de preencher todos os quesitos acima descritos. Será que encontro uma?
De qualquer forma, não vai ser por agora. O motivo é simples: os recreadores ainda me irritam muito!!!
Beijo para quem é de adoção, abraço para quem é de recreação!

2 comments
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12 Março, 2008 às 2:05 pm
Biritis
Maravilha como escreve! Exceletes textos para nossa reflexão!
Bjs
12 Março, 2008 às 4:30 pm
Gabs
Hola mujer! Adorei teu blog e teu estilo de escrita! E adorei mais ainda teres me linkado, uma honra, deveras.
Bem, engraçado vc ter escrito justamente sobre maternidade, coincidentemente o período pelo qual estou passando. Tenho 31 anos e estou grávida (de 9 meses!) de minha primeira filha : )
Eu sempre quis ter filhos e, apesar de ser uma porra-louca e tê-la sido a vida inteira, a idéia de ser mãe nunca me causou ojeriza ou desconforto.
Eu sempre encarei como sendo um “período” pelo qual toda mulher deveria passar… e outra coisa: essa coisa de que uma vez que você é mãe, você deixa de viver sua própria vida é folclore, do tempo de nossas avós, deliciosas e coitada delas, que sim, faziam isso. A long time ago.
Hoje em dia não tem mais essa! Você é quem dita o ritmo da sua vida e é você quem aceita ou não ter a vida controlada pelos filhos.
Como fazem os filhos de famosos/rock stars/modeletes/atletas e qualquer outro profissional que tenha uma vida corrida e simplesmente não podem ou não querem ter que abrir mão de tudo o que conquistaram?
Sou jornalista e produtora de video (isso inclui: cinema, tv e internet) e uma vida corrida pra caráleo, badalada pra caráleo, cheia de festas de lançamento, cocktails, vernissages, shpws e o caralho a quatro de frescurites para se lançar qualquer coisa que seja.
Eu gosto dessa vida e não vou largá-la. Vou levar a bebê quando puder, quando não, vou deixá-la na minha mãe (que graças a deus compreende meu modo de vida) ou deixá-la com o meu marido (quando ele não for me acompanhar)
Vou continuar bebendo sim, estou vivendo.
Vou continuar saindo para baladas, dançando, saindo com minhas amigas…
É o que eu gosto de fazer.
Posso fazer isso e ser mãe ao mesmo tempo. Porque não? E minha filha vai se acostumar a ter uma mãe assim. o problema é se no começo eu for toda resguardada e tal e depois despirocar..aí vai ser um baque pra criança. Mas se você encaixar o bebê em SUA rotina e não o contrário, fica tudo bem mais fácil.
E mais: para ser uma boa mãe é preciso ser uma mãe feliz. Desculpe se escandalizei as mais adeptas da figura de “mãe-mártir”, mas não faz o meu gênero.
Eu quis a pequena, mas a quis para complementar minha vida, e não subtraí-la ou podá-la.
Tenho outro blog tb, o blog da mãe-despirocada: http://www.superbebe.wordpress.com
Beijos e sossega. Se você tiver que ser mãe, espero que faça as escolhas certas…mas não pense só no bebê. Pense em você.