
Quando as coisas começam a não ficar muito claras, a interpretação da vida passa a ser feita na base do instinto, dos sinais. E como as relações hoje em dia não andam muito claras - aliás, parece que quanto mais somos bombardeados de informação, mais difícil fica a nossa comunicação uns com os outros -, o que nos resta é ir decodificando os tais sinais. Ou não…
Alguns livros que eu me recuso terminantemente a ler tratam disso e dão conselhos do que fazer e não fazer, de que sinais você deve dar e quais deles andamos recebendo (pois é, outra faceta da modernidade: livrarias tomadas de livros de auto-ajuda). Um deles, confesso, não li, não vou ler, não me dêem de presente porque eu vou ficar irada, pois só o título já me deixa de TPM imediata: ‘Ele simplesmente não está a fim de você’. Eu imagino que o livro inteiro mostre os sinais que os homens que não querem o monstro verde do compromisso dão às mulheres: não ligam, não retornam ligações, só querem te ver durante a semana, não se declaram, ligam para você depois de seis meses como se vocês tivessem conversado ontem, e bla-bla-bla-bla-blog.
Esse é apenas um dos livros que eu poderia citar que me irritam com dicas para você conseguir arranjar ou manter ou até mesmo perder um relacionamento amoroso… Eu até ganhei o “O que toda mulher inteligente deve saber”, que também varia em torno do mesmo tema: a interpretação dos sinais e os sinais que você deve passar ao sexo oposto caso se sinta atraída por ele. E aí você encontra as maiores contradições do planeta. Desde o “não ligue nunca” até o “maltrate de vez em quando”. Pode ser que isso tudo seja, sim, a maior verdade do planeta, porque, no final das contas, é preciso haver o desafio da conquista, o mistério, o esforço… Mas se for para jogar o tempo todo, pára o ônibus que eu quero descer. Não quero mais brincar disso. Joguinhos são para crianças. E se o sujeito me despreza ou gosta de ser desprezado, algo está definitivamente errado, e eu não preciso de um livro para me dizer isso.
Voltando aos sinais, uma história muito divertida que gosto de contar (e se conto e me divirto é porque está resolvida, antes que alguém comece a ficar com medo das histórias que eu ainda pretendo revelar ao universo) é a de uma amiga, que chamarei aqui de Ana, que recebeu sinais Divinos antes de se casar. Algo ou alguém lá em cima estava querendo dizer à Ana que a coisa não ia dar certo. Mas se ela não ouviu os sinais terrenos, que foram muitos, entre eles as minhas próprias dicas e a de seus pais e irmãos, imagina os Divinos… Por mais fé que Ana tivesse, ela não levou fé alguma… e se ferrou. Ou melhor, no meu ponto de vista, se deu bem. Mas vamos aos sinais.
Ana é uma moça católica. Não casou virgem, mas casou com o primeiro homem de sua vida, sexualmente falando sobre ‘vias de fato’ (nesse ponto, tem gente desligando o computador e parando de ler o blog, afinal esta foi uma frase forte, chocante, e que nem todo mundo tem estômago para ler). Ia casar na igreja com o moço que só havia sido batizado. Tudo bem, porque hoje em dia, que eu saiba, para casar na igreja você só precisa ser vacinado, opa, quer dizer, batizado. Pois a peregrinação de Ana para ter o casório que toda mulher sempre sonhou, na igreja, teve início quando ela precisou rebolar, e muito, para achar uma igreja que realizasse o obrigatório ‘curso de noivos’ em apenas um dia, uma tarde que fosse, e não durante um final de semana inteiro. Seu gentil noivo se recusaria terminantemente a se casar se tivesse que ficar enfurnado durante um fim de semana inteiro numa catequese de casais.
Determinada e competente, conseguiu! Lá se foram os noivos para o curso que, nossa, que surpresa, segundo os relatos de Ana, até que foi bem interessante, esclarecendo questões legais sobre comunhão de bens (ela deveria ter prestado mais atenção nesta parte), sobre a vida a dois com Cristo (ela realmente queria muito que essa parte acabasse logo para que seu noivo não resolvesse sair correndo, fazendo-a pagar o maior mico da sua vida), entre outras palestras até que bem cuidadas. Tudo teria corrido super bem, especialmente porque Ana ficou entretida em avaliar psicologicamente o comportamento de todos os casais presentes, o que foi muito divertido, se não fosse pelo exercício do ‘olhar’. No curso, os casais precisavam, durante uma dinâmica (esse nome já dá até arrepio… em qualquer situação ‘dinâmica’ lembra constrangimento), se olhar nos olhos (um para o olho do outro, e não dos vizinhos) durante alguns minutos.
Ali Ana recebeu o primeiro sinal: o noivo ficou extremamente desconfortável em olhar nos olhos de Ana durante os minutos sugeridos. Encarou como se fosse um jogo e, competitivo, foi até o fim. Mas sem carinho ou romantismo, apenas com um tremendo desconforto.
Depois, o segundo sinal: o noivo sumiu às vésperas do casamento, dia que Ana teve sua despedida de solteira. No dia seguinte, recuperando-se de seu primeiro grande porre (eu tive que ir lá ajudá-la e nunca vi minha amiga em estado mais deplorável), e após ter ido ensaiar as daminhas vomitando e vendo seis crianças em vez de três, Ana recebe o telefonema forçado do noivo (forçado porque a mãe dele implorou que desse um sinal de vida à pobre ressacada). E a resposta de ‘onde estava ele no dia anterior enquanto ela tomava o primeiro grande porre de sua vida’ foi tão dolorosa quanto uma apunhalada no peito: ‘no shopping’. Em tempo: assim como a maioria absoluta dos homens, o noivo de Ana o-di-a-va shopping. A tragédia foi amenizada com um belo presente de casamento que ele teria comprado no tal shopping. Uma jóia. A primeira que Ana ganhava de um homem. E assim lá foi ela.
Na seqüência, outro encontro desconfortável com Deus e o terceiro sinal: a entrevista com o padre. Feito o curso de noivos, é preciso bater um papo rápido com o padre antes do casamento. É claro que é um cuidado da Igreja, ainda que não muito eficaz, para evitar os casamentos que só ocorrem na Igreja porque os noivos ou, mais comumente, os pais dos noivos, acham bonito. E aí, vamos recordar, Ana era católica, o noivo era só vacinado, ou melhor, batizado. Pois a primeira pergunta do padre foi simples: “Os noivos juram dizer a verdade?”. “Juramos”. Primeira pergunta para o noivo: “Você foi crismado, meu filho?”. Resposta do noivo de Ana: “Sim, seu padre”. Pensamento de Ana: “Fodeu”. Segunda pergunta para o noivo: “E primeira comunhão, você fez?”. Resposta do noivo de Ana: “Não, seu padre”….. Bem, de acordo com os sacramentos da Igreja Católica, quem faz crisma precisa, necessariamente, ter feito a primeira comunhão antes… Anos depois, já separada, Ana me disse que naquele momento parecia ter ouvido uma voz do Além que dizia: “ele meeeeeeeeeeeeeeeeeeeeennnnnnnnnte!!!!!”.
O quarto e derradeiro sinal, e, alô determinação, mesmo assim Ana se casou, veio no dia do casamento mesmo. Ana, determinada e competente, não quis um padre comum para o seu casamento. Arranjou um padre-psicólogo, inteligente, autor de vários livros, que fazia inclusive atendimentos psicoterapêuticos em sua paróquia. Ana ia se casar em outro lugar, mas insistiu e conseguiu que o padre em questão fosse até esta outra igreja. E valeu a pena, pois as falas do padre, no momento da cerimônia, estavam espetaculares. Tudo estaria lindo (eu estava lá no altar, de madrinha, e tudo estava lindo mesmo), não fosse pelo noivo, que suava de nervoso (fazendo até a mãe de Ana se confundir e achar que era choro, mas não era, não, eu vi que não era), e dizia não estar entendendo uma só palavra do que o esclarecido e realmente muito claro padre falava. Foi quando chegou o momento que deveria ser o mais emocionante do casamento, quando os noivos juram amor eterno um ao outro. O noivo, confuso e nervoso, jurou amor eterno e fidelidade, sim, mas não à Ana – o que ficou mais do que comprovado alguns anos depois – mas ao padre, pois sentiu necessidade de fazer uma leitura labial para repetir as palavras do juramento. Disse o noivo de Ana olhando nos lábios do padre: “Amando-te, respeitando-te, até que a morte nos separe”. Pois a vida acabou por tratar de separar o casal antes. Ufa!!!! Do padre que ganhou juras de fidelidade do noivo (só para o padre mesmo), Ana nunca mais teve notícias.
Só para encerrar o papo dos sinais, eu acho que todos os contratos que firmamos na vida, o que inclui, na minha opinião, as relações, poderiam ser definitivamente mais claros (tão claros quanto o padre de Ana). Porque viver na corda-bamba, decifrando sinais, fica difícil demais.
Beijo para quem é de explicação, abraço para quem é de sinalização.

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